domingo, 26 de fevereiro de 2012

Da morte e outros problemas


Semana passada, um dos maiores e melhores amigos do meu pai faleceu, após breve luta contra essa praga maldita que é o câncer. Eu tinha vários "ângulos" para escrever esse post e até agora não consegui me decidir: sobre como ele tinha quase a mesma idade do meu pai e isso me afeta incrivelmente, isso de lidar com a mortalidade alheia; sobre como a nossa família pequena era estendida aos finais de semana quando íamos para o longínquo Tatuapé e brincávamos sem parar com a Mari e a Roberta, suas duas filhas lindas, que também regulam de idade comigo e com meu irmão; sobre como é insuportavelmente difícil receber uma notícia dessas - por qualquer meio - e não ter como abraçar ninguém nem ajudar meu pai a passar por isso. Sobre como é insuportavelmente difícil receber essas notícias e não poder fazer nada, nadica de nada, a não ser escrever, escrever uma mensagem de texto, um status update no facebook, um email, um post no blog.

Sobre como o Tio Dé, Edélcio Teixeira, era uma pessoa iluminada e como ele e sua família igualmente iluminada fizeram parte da nossa história.

Da maneira mais egoísta possivel, resolvi escrever, como meu irmão fez, pra Mariana e pra Roberta, porque essa é perspectiva que conheço, a do filho. Pior, a da filha que teme a cada dia receber um telefonema fatídico, um que certamente virá um dia, tão certo como o imposto recolhido, morte e impostos. A certeza indubitável. Para um filho pródigo, distante, o medo de não dizer adeus. O medo da viagem de muitas horas para encontrar uma tristeza infinita.

Mari e Rô, nós nunca estivemos perto, mas participamos, ao longo desses quase 30 anos, das vidas alheias, primeiras comunhões, recitais de dança, os oficiais e os da sala, aniversários importantes, domingos de sol, domingos de chuva, o aprendizado lento da arte de fazer e comer miojo - muita água, pouca água, requeijão, algumas viagens inesquecíveis e ainda agora, casamentos. Nós acompanhamos umas às outras todas as vezes que os pais chegavam em casa, às vezes não tão felizes assim afinal a vida não foi sempre fácil, e diziam que haviam estado com o outro "pai" e a pergunta "Como estão as meninas?" sempre seguia. Algumas fotos de vez em quando. Nossas vidas seguem à distância um paralelo de carinho, amizade e um laço que nunca vai se desfazer, porque o seu pai um dia foi meu pai também, a sua mãe um dia cuidou dos meus dodóis também. Um laço formado por uma amizade muito maior que a nossa, infinda e agora eterna. Hoje eu quero que o meu pai seja seu também, para que vcs nunca deixem de ser abraçadas por uma barba grisalha bigoduda e por uma risada grave, aquela que enche a sala de música.

Digam onde dói e eu limparei suas feridas. Somos irmãs distantes, de pais irmãos. 
O seu pai foi mesmo uma criatura iluminada e fez de nós sortudos um pouco melhores, um pouco mais felizes.

Não consigo colocar aqui o tamanho do sentimento de impotência que tenho, estar longe em horas como essa, e trocaria todas as nova-zelândias do mundo para estar aí. Perdão.

Saibam que, como meu pai, minha mãe e meu irmão, já chorei pela injustíssima morte do seu pai, mas também sorri, como estou sorrindo agora, ao lembrar de tantos momentos com vocês todos. Obrigada.

Seremos sempre irmãs distantes, porque fardo dividido é fardo mais leve. Contem sempre comigo.

Um beijo,

Fê =)

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

APOIO

Oi meninas

Escrevo pra dizer o que vocês já devem ter ouvido de muita gente nesse periodo tão difícil: se houver algo que eu possa fazer pra ajudá-las a superar essa tragédia, não hesitem em pedir.

A amizade que sempre cercou as nossas familias é algo que deve ser cultivado, valorizado e desfrutado pela vida toda. O tio Dé e meu pai sempre foram mais que amigos - foram irmãos, confidentes, parceiros pra vida toda, e isso me ensinou muito sobre como uma amizade deve ser em face da realidade dura e, muitas vezes, injusta com pessoas de bem. Li diversos depoimentos nos ultimos dias e vasculhando minha memória notei que, realmente, nunca vi o tio Dé com algo diferente de um sorriso estampando seu rosto. 

Acredito que este constante otimismo e postura em relação ao mundo, não importa o que esteja acontecendo, é um privilégio de poucos seres iluminados que temos o prazer de conviver em nossa existência. Isso me conforta e me ajuda a pensar que, na verdade, o sortudo dessa história toda é o tio Dé, que saiu desse caos porque cumpriu a sua missão, plantando a semente da alegria e da amizade e deixando essa família maravilhosa pra continuar o seu legado e agora olha por nós e nos espera em um lugar melhor, com seu eterno sorriso estampado no rosto.

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Edu Mazziotti
(para Vani, Mariana e Roberta)

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

Lá se foi um Amigão


Edelcio Teixeira, o Dé, é um dos maiores amigos que tive. E para quem sabe a importância que a amizade tem pra mim, não é pouca coisa o desaparecimento dele, nesta segunda de carnaval (que carnaval?!). Com ele trabalhei lado a lado em várias agências, dividimos angústias, no início de carreira na Almap, no meio quando fomos considerados grandes profissionais. E no fim, já expulsos da propaganda e meio atarantados, procurando algo pra fazer que preserve a dignidade,  mantenha a lucidez e, de preferência, gere algum. Nas férias, alugamos e dividimos casas em Santa Catarina - onde hoje está o Beto Carreiro World - e em Monte Verde (onde montou com Vani a única casa de pizza frita que conheci, na receita impecável da Nonna) , vimos filhos e filhas, pequeninos, construírem a amizade pra sempre, como a nossa! Presenciei sua aflição ao encerrar o Bife Brasil, criativo "restaurante para almoço" nas imediações da Avenida Paulista, por causa do tráfico de drogas. Quem comandava a cozinha do Bife eram as maravilhosas Vani, esposa e cúmplice, e Iza - mãe e fã. Na produtora que montei, assumiu o Atendimento, e que atendimento! Por mais que a situação estivesse complicada, Dé sempre achou um jeito de me animar, vendo as coisas em outra perspectiva. Muito espiritualizado, tenho a sensação de que "enxergava" coisas fora do meu alcance. Tenho certeza de que foi em paz. Afinal, as filhas estão encaminhadas e prontas para a felicidade, a mulher há de concordar que não seria possível ser mais feliz com outro alguém. Os amigos não poderiam estar mais tristes com sua partida precoce. E o Corinthians, campeão brasileiro, se prepara para jogar em seu estádio, quem sabe conquistar essa merda de Libertadores, abrir a Copa e ganhar o mundo. O que mais o Dé quereria?

Kiko Mazziotti
20.fevereiro.2012