domingo, 4 de dezembro de 2011

Sócrates e a bebida


 
Não gosto de autógrafos. Não vejo razão pra ter o garrancho num guardanapo, de alguém que você não conhece, como pessoa. Já já vão inventar o autógrafo pela internet: você entra no site do ídolo e lá está o autógrafo produzido, com foto e frase bonita, só esperando pra colocar seu nome em cima e imprimir.

Dar autógrafos é uma chateação. Pelé ficava mais de uma hora, com sua paciência real, depois de cada jogo. Lógico que é reverência, sinal de respeito e idolatria, e isso deve fazer bem pro ego de qualquer um,  mas deve ser chato, por forçado e falso, apesar de genuíno.

Gostaria que alguém desse um só motivo para se ter, no sanduíche de vidro na sala de casa, autógrafos de Justin Bieber ou Sandy. A sandice ataca principalmente adolescentes, os mesmos que chacoalham braços, durante horas, em shows sem conteúdo.

O único autógrafo que pedi na vida foi para Sócrates, na churrascaria Laço de Ouro, onde atacávamos a dentadas nacos sangrentos de carne; ao vê-lo tomando espremidinhas com cerveja, não consegui segurar o impulso, fui até a mesa dele, fiz uma piadinha besta e ele, gentilmente, escreveu “...para mais um corintiano feliz, um abraço do Sócrates”.

Cachaça e cerveja são ótimos pra quem não joga, pensei. Se tudo for consumido com moderação, dá pra fazer a vida toda e esta é minha relação com o álcool e com a comida. Sei que, ao exagerar, vou danificar  cabeça, tronco e membros. Mas a moderação só vem com o tempo. Como dizia minha mãe “...se crianças soubessem e adultos pudessem”.

Se há uma coisa que Sócrates não conseguiu na vida foi ser moderado. Ele é ponto fora da curva em vários aspectos: craque (um dos maiores meias-atacantes da história do futebol, com seu calcanhar preciso e jogo inteligente), tinha o nome tão comprido quanto as pernas, médico, língua ferina e alcoólatra. Que suba em paz e sirva de reflexão para quem exagera. Um dia a conta chega! Pena que pra ele chegou salgada e cedo demais...

Kiko Mazziotti
4.dez.2011

3 comentários:

Lalau disse...

Kiko, no "Fiel 100 anos", conto que tomei um porre com o Dr. Sócrates. O Jef, da Gang, e o Hermes Rosa, do bar Léo, que promoveram meu encontro com ele. Varamos a madrugada tomando espremidinha e cerveja, lógico, falando do Corinthians, logicamente, e relembrando sucessos sertanejos. Coisas de amigos em um botequim. Passei, então, a considerá-lo como um "amigo", a partir daquela noite. E guardei isso só para mim, nesses anos todos. Era um "amigo" que jogava no meu time do coração e da alma! O melhor do time! Um "amigo" que me deu muitas alegrias. Mas, hoje, estou triste. Justamente hoje, no dia em que mais alegrias provavelmente estarão por vir na forma de camisas pretas e brancas, meu "amigo" se foi.

Kiko Mazziotti disse...

Lalau irmão
Relendo o texto que fiz sobre a morte de Sócrates, algumas coisas não ficaram claras, como acontece com muitos textos, e tento consertá-las aqui.
(1) Fiquei com uma raiva branda do alcoolismo do Magrão. Por gostar dele, achei que "... ele não poderia ter feito isso com a gente, que o amava tanto".
(2) para homenagear aquela dupla que tanta alegria nos deu, os únicos cachorros que tive na vida se chamavam Sócrates e Casagrande e viviam fazendo tabelinhas na chácara. Um morreu atropelado e o valente cãozinho Sócrates sucumbiu em luta com uma cascavel. Ele matou a cobra, mas não aguentou o veneno da danada.
(3) Não quis dar uma "lição de moral", que não sou disso, ao recriminar o exagero alcoólico do Magrão. Minha intenção foi transformar a morte dele em algo utilitário, evitando que pessoas brinquem com um assunto tão sério quanto é o alcoolismo. Já perdi amigos demais com essa doença!
(4) acho que o time poderia fazer uma bela homenagem ao Doutor, com exibição de gala e a conquista do pentacampeonato brasileiro.
(5) o único autógrafo que pedi foi para Sócrates. Acho que, no fundo, eu estava pedindo um autógrafo para todo aquele maravilhoso time do Corinthians, liderado por Sócrates.
Kiko Mazziotti

Jair Antunes disse...

Amigos irmãos,
ouvi muitos comentários sobre a morte do Sócrates de ontem pra cá. No rádio, na TV, jornais e internet, e no boca-a-boa.
No meu modo de ver as coisas hoje, e digo hoje porque já pensei diferente ontem, não dá pra misturar Sócrates com o seu modo de beber. Tecnicamente não é correto, no meu ponto de vista, repito.
Sei que ninguém o faz por mal, é claro, principalmente os que o amaram.
Sócrates, o jogador talentoso e o homem inserido de corpo e alma nas questões sociais e humanas era um. Sócrates, o bebedor-problema era outro.
Como ninguém pode "não querer" que um tuberculoso tussa, ninguém pode "não querer" que um alcoólatra beba. Alguém disse “-Ah, mas se ele não bebesse daquele jeito podia estar aqui com a gente agora". Outros -"O cara além de tudo era um médico, ele sabia o quanto estava lhe fazendo mal". Alguém mais "-O Doutor era um cara tão inteligente, pô!..” Há quem possa achar até que ele queria se matar.
Amigos, ouvi do próprio Doutor em uma de suas últimas entrevistas, depois das duas primeiras internações que ele não era dependente químico. Que não sentia a menor necessidade de beber e que a bebida não lhe fazia a menor falta. Ele disse, sou alcoólatra, mas a bebida sempre foi algo dispensável pra mim.
Parece loucura e é. Alcoolismo é doença física, mental e emocional.
Ao ouvir o Doutor, ficaria estarrecido se eu próprio não fosse alcoólatra e não tivesse, na maior parte da minha vida, pensado da mesma maneira.
Também amava o doutor. Imaginei muitas vezes nas minhas fantasias megalomanícas jogando com ele e com igual desenvoltura. Idealizava ser seu amigo sem nunca tê-lo visto, por admirar sua cabeça ainda mais que os seus pés.
Pra mim só houve um Sócrates: o gênio. O outro, era um homem comum como tantos outros que precisam de ajuda.