sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

DOUGLAS


É curioso como nossa memória pode ser cutucada, a qualquer tempo, e revelar seu conteúdo. É como se houvesse o sótão do cérebro (hoje seria a pasta Meus Documentos) onde estão – em gavetas – guardadas nossas lembranças. Não faz mal que esteja empoeirado, lâmpadas queimadas e aranhas, mas está tudo lá. É só procurar que a gente acha.
E ontem foi um dia especial, em que visitei meu sótão, ao identificar a pessoa que chegou à pizzaria Margherita. Comentei com meu amigo “... acho que ele é da Aclimação da minha infância!”. E era.
Morei em dois endereços naquele bairro: o primeiro, durante o ginásio, em prediozinho curvo, em frente à casa da amante do embaixador. Não havia como esconder o affair, pois ele chegava diplomaticamente em um Ford Thunderbird, deixando-me a imaginar em quanto tempo os amantes estariam pelados na sala. Com 12 ou 13 anos, várias vezes homenageei a vizinha gostosa e a cena que construí. Após temporada duríssima no apartamento, meu pai conseguiu comprar uma casa, três ruas acima, que acomodou melhor a família e iniciou etapa mais suave em nossas vidas. E foi ali, perto do parque, que comecei a jogar futebol, onde houvesse espaço, uma bola e, às vezes, a lua pra clarear o campo de asfalto. Desafiávamos a rua de cima; descíamos, em carrinhos de rolimã, a curva que margeava a escola de surdos, eu fugia do Colégio Anglo Latino (entra burro e sai cretino) pulando o muro, para ir remar. Chego a sentir, hoje, o cheiro acre do lago. Quando tive idade para jogar na várzea, fui me exibir no campo da Aclimação e ficava por ali, até que alguém me “achasse” e considerasse meu futebol suficiente. Foi nessa época que conheci o Douglas, um dos maiores jogadores de futebol (amador ou profissional) que já vi. Não sei se as datas batem, mas acho que corria o ano de 1965... Douglas inventou – literalmente – um drible, depois eternizado por Pelé, que criou vários. Ele jogava a perna direita para a frente, ao lado da bola, e dava uma torção no pé, que era acompanhada pelo corpo todo, saindo pelo lado esquerdo e levantando a bola a centímetros do chão, de tal forma que a perna do marcador não alcançasse, de jeito nenhum, e a bola passava tirando tinta da canela da vítima. Feito o drible inapelável com o pé direito, a bola se oferecia plena ao pé esquerdo, de pontaria certeira. Era uma maravilha, obra de arte pra quem gosta de futebol. E Douglas tinha estilo inconfundível, postura – como dizer? – pernóstica, corpo ereto, cabeça levemente jogada pra trás e uma corrida elegante e suave. Era uma mistura de Ademir da Guia, Ademar Pantera, Dirceu Lopes, Leivinha e Silva, ótimo centroavante do Coringão. O moço que encontrei na pizzaria era mesmo irmão do meu ídolo, falecido precocemente. Até o Esquerda confirma a história, dos tempos que permanecem no sótão da minha memória.

Kiko Mazziotti
Setembro.2011

0 comentários: