MARIDO
Conheceram-se na década de 40, durante a guerra. Regina era linda, pernas torneadas, esbelta e elegante, olhos negros que, da janela, só fitavam a vida da pequena cidade de Marília.
Além da guerra, o ex-combatente Antonio tinha sua batalha particular: conquistar o coração da moça que não saía da janela.
Ele acabara de se formar em agronomia e já tinha sido aprovado no concurso para trabalhar na Casa da Lavoura. Era emprego promissor, que o jovem abraçou com entusiasmo. Todos os dias pegava seu jipe, câmbio seco, e ia para o campo (a roça, como dizia ele, homem de poucas palavras) conhecer o país que produz. Mais que sementes e orientação técnica, levava esperança para agricultores e suas famílias.
Regina era a irmã mais nova de família grande e tipicamente interiorana. Os pais lidavam com um açougue, onde ela aprendeu que o porco faz um baita escândalo antes de morrer e que a boa peça de filé mignon não deve passar de dois quilos.
No dia que Regina se distraiu, Antonio a abordou na calçada. Daí para o casamento foi um pulo. Montaram uma casinha que parecia (e era) de boneca, uma boneca chamada Regina. Vasinhos de violeta nas janelas, um jasmineiro que perfumava o quarteirão, fogão a lenha de onde brotavam delícias como doce de abóbora com coco, bifes à milanesa e pastéis sequinhos com carne moída, ovo cozido e azeitonas.
Era nessa casa que eu passava férias e onde soube o significado da palavra libido. Para mim, significava a empregada da tia Regina, que tomava banho e saía do chuveiro, todos os dias, só de toalha. Dava uma curta corrida entre o banheirinho do fundo e o quarto, mas para mim aquilo já era suficiente.
Como Antonio e Regina não tiveram filhos, o carinho deles era despejado em sobrinhos e sobrinhas. Nos períodos de férias, eles não eram tios, eram pais. Foi ele quem me tornou corintiano e me ensinou a amar um clube, com paixão e sem reservas.
Antonio sempre foi econômico em palavras. E Regina foi sua maior defensora; tentava disfarçar a secura de Antonio com sua suavidade e ternura. Completavam-se.
Nos últimos tempos, Regina, ainda altiva e elegante, foi colhida por uma doença de nome estranho, Alzheimer, e não reconhece mais ninguém. Dia e noite, vem sendo cuidada pelo amado Antonio.
Ele não consegue entender que diabo aconteceu com sua Regina. E ela só fala, de vez em quando, uma palavra: MARIDO! Para ele, isso basta.
Kiko Mazziotti
Dezembro 2007

1 comentários:
Kiko, acho a crônica um gênero apaixonante. Realidade e ficção se misturam, às vezes não se sabe onde começa uma ou termina outra. É para pouco, e você é um desses poucos. Obrigado por mais essa! Beijos Lalau
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